
Aproveitamento: 37%
Comissão técnica Primeira Fase: Carivan Cordeiro, Fabrício, Waltinho, Fred.
HEXAGONAL FINAL
1 x 0 Nacional (casa)
3 x 2 Democrata (casa)
2 x 2 Patrocinense (casa)
1 x 4 Nacional

Capítulo VI - A PRECISÃO
- O treinamento da precisão
O treino da precisão sofre a influência de três princípios na visão de Golomazov e Shirva : “quantidade, especialização e orientação de exercícios” (1996,53).
Princípio da quantidade significa que o treino da precisão deve constar de várias repetições, variando as atividades para eficácia do treinamento.
Especialização requer aproximação do treino em precisão nas ações referentes às situações de jogo, necessitando para isso de coordenação muscular, alterações cinemáticas, dinâmicas e de um estado funcional favorável do atleta.
A cinemática e a dinâmica do movimento interferem na precisão, pois o chute apresenta diferença quando se leva em consideração fatores como a velocidade do atleta, força do chute, resistência do adversário, variação dos chutes (altos, rasteiros, meia-altura ) e ações que precedem a finalização dos mesmos (corrida, saltos, condução de bola) .
O treino da precisão deve obedecer ainda a um regime fisiológico correspondente ao estado funcional que o atleta apresenta durante um jogo.
Já na orientação dos exercícios dá-se ênfase aos sistemas sensoriais, especificamente musculares, articulares e visuais trabalhando a técnica e o desenvolvimento do aparelho motor.
“Para desenvolver a sensibilidade coloque aos futebolistas o objetivo: “mais difícil que o principal”. Ao treinar técnica observe o princípio da especificação: “no treino como no jogo”. Ao desenvolver as qualidades físicas parta do princípio : “necessário/suficiente”, sugerem Golomazov e Shirva (1996,70).
- Métodos de treinamento:
Para o treinamento da precisão os métodos mais importantes são três, segundo Golomazov e Shirva: “repetições, aproximação de tarefas e contrastes” (1996,73).
A repetição de exercícios pode ser simples, com quantidade e tempo desejado , intervalados e em séries, com objetivos pré-colocados como acertar dez vezes consecutivas ou um determinado número de vezes a partir de posições diferentes.
Quanto ao método de aproximação de tarefas “consiste na execução de um só exercício em circunstâncias (estímulos) inicialmente muito diferentes que, aos poucos, se aproximam” segundo Golomazov e Shirva baseado no fenômeno da “inibição fisiológica” descoberto pelo fisiologista russo Ivan Pavlov (1996,74).
Já o trabalho com contrastes aumenta a eficácia do treino da precisão embora não deva ultrapassar um quarto das atividades do dia. Pode ser realizado com variações de tabelas ,uma de longe outra de perto, antes da finalização ou variando também o peso da bola ou as circunstâncias do treino.

- Controle da precisão:
Corresponde às avaliações que são feitas com atletas inerentes à precisão no sentido de se planejar os objetivos de um trabalho, ou mesmo, resultados e por conseqüência um “feedback”, redirecionando o treinamento.
O objetivo é diferenciar a precisão herdada da que foi adquirida em resultados da preparação motora geral.
Estes testes interessam mais para o próprio treinador do que para o atleta, mas é importante que o segundo tome conhecimento, podendo assim entender e melhorar sua participação nos treinamentos.
Para alcançar tais avaliações Golomazov e Shirva sugerem “testes de precisão de execução das ações técnicas e testes de manifestação conjunta entre precisão e velocidade” (1996,152).
Nossa pesquisa, que será detalhada no próximo capítulo, tem como objetivo a execução da precisão do chute, sem levar em consideração a velocidade e as características de composições corporais específicas do sexo, em alunos de escolas especializadas, ou seja, vindos de uma preparação técnica constante.
Capítulo VII - A PRECISÃO DO CHUTE NO FUTEBOL MASCULINO E FEMININO - PESQUISA NÃO EXPERIMENTAL
“Pesquisar é reinventar seus novos pensamentos”
Gustavo Almeida (1994,04)
Fundamentados na variedade de análises e conhecimentos adquiridos nos capítulos anteriores, apresentamos nesta parte do trabalho todo o desenvolvimento e metodologia da nossa pesquisa propriamente dita.
VII-1 - Desenvolvimento do Trabalho:
- Justificativa :
Esta pesquisa servirá para analisarmos a diferença na precisão de chutes a gol no futebol masculino e feminino.
- Objetivo:
Determinar a diferença de aproveitamento do chute a gol entre os atletas do sexo masculino e feminino, contribuindo assim para a afirmação do futebol feminino no cenário esportivo nacional e mundial.
- Delimitação
Foram analisados alunos exclusivamente de escolas especializadas, os quais executavam dez chutes livremente. O total de alunos analisados foram de dez alunos do sexo masculino e dez alunas do sexo feminino.
- Definição de termos:
ESCOLA ESPECIALIZADA: é a escola cujo objetivo visa trabalhar os fundamentos de um tipo de modalidade esportiva, no caso o futebol.

VII – 2- Metodologia :
- Tipo de pesquisa:
Pesquisa não experimental, onde analisaremos os chutes de jogadores de futebol e mostraremos, através de dados, as diferenças de aproveitamento na precisão em chutes a gol, sem interferências de padrões corporais inerentes às características sexuais.
- Instrumentos:
Para a realização dos testes foram utilizados os seguintes materiais:
- uma bola de futebol de campo;
- um trena de quinze metros;
- um gol de futebol de campo, com rede;
- um rolo de barbante, para delimitar a área do gol;
- Prancheta, caneta e folha não padronizada, para anotação dos resultados (rascunho).
- Amostra:
Foram testados vinte alunos sendo dez de cada sexo, todos com mais de um ano de treinamento das técnicas específicas de futebol em escolas especializadas.
- Procedimentos :
Os alunos deviam chutar a bola ao gol, seguindo seu estilo e técnica preferida, num total de dez bolas cada um, a distância de onze metros do gol. Os chutes deveriam ser executados em direção ao gol, dividido em nove regiões. O acerto receberia uma pontuação pré-determinada variando de um a quatro pontos. Chutes na trave ou para fora foi atribuída nota zero.
- Análise dos Dados:
- Média dos chutes dos alunos:
Masculino = Feminino
1 – 1,9 = 1 – 2,1
2 – 3,6 = 2 – 2,6
3 – 1,7 = 3 – 2,2
4 – 2,0 = 4 – 1,6
5 – 2,6 = 5 – 2,9
6 – 2,9 = 6 – 3,0
7 – 3,0 = 7 – 1,9
8 – 1,6 = 8 – 2,7
9 – 2,6 = 9 – 2,0
10 – 1,7 = 10 - 3,4
- Média Aritmética
X = 2,36 = X= 2,44
- Desvio Padrão :
S = 0,66 = S= 0,47
- Discussão:
Considerando os resultados encontrados, não só provamos que a precisão do chute a gol no futebol independe do sexo do atleta, como podemos observar neste trabalho uma pequena superioridade das mulheres talvez por detalhes tais como atenção e concentração. É bom dizer que durante os testes em ambos os grupos existiram aqueles que arriscaram menos ou mais.
Voltamos a lembrar que este teste foi feito com alunos de escola especializada, podendo não ser encontrados resultados semelhantes quando comparados a atletas profissionais, cujos homens têm mais oportunidade e tempo para treinamento e competições.
Como o objetivo do futebol é “bola no gol” e para esse fim exige-se precisão, as mulheres treinadas nas mesmas condições masculinas podem obter a mesma capacidade.
Portanto, o futebol feminino desenvolvido técnica e taticamente apresentará um espetáculo que só não se compara ao masculino pelos parâmetros físicos inerentes a composição corporal adquirida geneticamente.
Esta diferença pode ser analisada de duas formas: se por um lado não vamos ter chutes e passes tão longos, vamos ter um jogo menos bruto, com dribles e passes mais curtos. Esperamos estar confirmando o que já havíamos comprovado na prática, durante nosso trabalho: as mulheres podem jogar futebol.
Fica agora aberta uma proposta para novos trabalhos que visem elucidar a relação da mulher com o futebol, aprimorando seus conhecimentos técnicos, físicos e psicológicos.

CONCLUSÃO
A pesquisa é uma oportunidade de novos conhecimentos e, além disso nos permite construir idéias, refletindo sobre os problemas do futebol, sua relação com a Educação Física e com o contexto social.
Impossível ficar indiferente ou mesmo tentar camuflar comentários irônicos que ouvimos diariamente dentro do nosso trabalho com equipes femininas.
Preconceitos que não se limitam aos homens, machistas por influências sócio-políticas, estendendo-se às próprias mulheres e às famílias das atletas.
A esperança fica por conta daqueles que acompanham o trabalho, entendendo a opção das meninas, dando o apoio e o respeito necessário para o seu desenvolvimento.
Neste trabalho, conseguimos confirmar que a mulher tem capacidade para atingir desempenhos favoráveis no futebol. A precisão é tão aguçada quanto nos homens e o seu treinamento apresenta resultados positivos..
Falta então um trabalho técnico mais apurado, desenvolvimento das qualidades físicas próprias do futebol, isto é claro, respeitando suas particularidades genéticas e de composição corporal. É bom que se frise isto: são particularidades e não limitações.
A consolidação e criação de equipes exclusivamente femininas com recursos próprios e comissão técnica exclusiva, são provavelmente a grande chance de crescimento do futebol feminino. Nos clubes já existentes, a preferência será sempre para o masculino, sendo as mulheres relegadas a segundo plano.
É importante também, a organização de campeonatos regionais e nacionais fortes que promovam confrontos entre todas as equipes do país, elevando a motivação das atletas, o nível técnico e despertando o interesse de novas garotas.
Este fortalecimento proporcionará o interesse da imprensa esportiva, favorecendo a busca de empresas fortes que patrocinem os clubes e os eventos relacionados ao futebol feminino.
Novos conhecimentos científicos na relação mulher-futebol, assim como intensificação dos treinamentos técnico, físico, tático, psicológico serão fundamentais para a melhoria das partidas femininas.
É importante entender porém, que muitas meninas praticam o futebol sem interesse em participar de competições, pretendendo apenas o lado lúdico do esporte, que lhes proporcione um bem estar corporal e o convívio social.
Nestes casos, aumenta-se a responsabilidade de escolas especializadas e de professores de educação física ligados ao futebol, para que os mesmos respeitem os interesses de cada um, evitando assim o desinteresse ou desmotivação pelo esporte em questão.
A conscientização da mulher dentro do contexto prático futebolístico também é imprescindível . É preciso que elas passem a ter mais interesse por jogos de futebol, indo aos estádios, assistindo a partidas masculinas e femininas, podendo descobrir por si mesmas mais detalhes sobre a dinâmica dos movimentos individuais dos atletas em função do coletivo.
Esperamos com o nosso trabalho estar contribuindo para a ascensão da mulher no futebol e no universo esportivo, reafirmando sua posição de lutas e conquistas no espaço social, consolidando seus interesses próprios com liberdade de pensamento e ação.
Almejamos também destacar a importância dos resultados sempre lúcidos da pesquisa, descobrindo conhecimentos, confrontando idéias, constituindo novos projetos de trabalho e buscando a evolução dos atletas dentro dos esportes, no caso o futebol.
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WEINECK, Jurguen. Biologia do esporte. São Paulo, Manole,1991.

No Brasil, o futebol ocupa o primeiro lugar de interesse na área esportiva, sendo a modalidade mais praticada e mais acessível para a população em geral. Com isso há um número muito grande de atletas e equipes, o que fortalece o desempenho dos clubes e seleção brasileira em nível mundial.
A maioria dos treinadores por falta de conhecimento científico acreditam que o jogador brasileiro nasce feito, não precisa de treinamento técnico e aquela criança que não é boa não terá futuro. Quem nasceu “bom de bola” terá seu futuro garantido.
Com essa idéia os nossos jogadores formam-se sozinhos nas peladas e brincadeiras de ruas, incluindo recentemente, com maior frequência, as garotas. Só depois, estes atletas procuram os clubes através de testes ou escolinhas.
Alguns fatores contribuem para a mudança desta situação como a modernização das cidades, a falta de segurança e de tempo livre dos pais ou das próprias crianças que vieram de encontro ao oportunismo de alguns empresários e à necessidade financeira dos clubes.

As escolinhas especializadas em futebol se difundiram no país oferecendo não só espaços seguros para a prática do futebol, como treinamento técnico, físico e tático, principalmente onde há o trabalho de profissionais da área de Educação Física.
Fora das escolinhas, o futebol pode ser praticado nas escolas (geralmente futsal) e nos bairros, através de programas sociais ou de governos. Além dos clubes há escolinhas criadas e dirigidas por empresários, ex-jogadores e professores de Educação Física.
Mas ainda assim a iniciação ou mesmo o treinamento de futebol passam por problemas . Nas escolas ocorre falta de estrutura, de material, e os professores mediante estas dificuldades, o excesso de alunos e a falta de tempo não alcançam os objetivos pré-estabelecidos para a educação nas várias faixas etárias.
Nas escolas do interior não há professores formados, assim como nos projetos elaborados por prefeituras, incluindo capitais, onde o ensino fica “na mão” de ex-jogadores ou pessoas que tenham interesse pelo futebol.
Isso acaba por não definir um padrão de qualidade do ensino, entretanto faz-se necessário, uma vez, que nem sempre encontram - se professores de educação física em disponibilidade ou os baixos salários não os atraem.
Nas cidades maiores as escolinhas particulares ou de clubes vêm conquistando seus espaços. Os alunos têm materiais, espaço físico professores formados. Os proprietários ou clubes, uma excelente fonte de renda, quando bem administradas.
As mulheres por sua vez se sentiram mais à vontade para a prática do futebol, quando no passado, mediante o preconceito, só jogavam com irmãos e primos.
Com a consolidação das escolinhas passaram a ser mais contestadas a utilização intensiva do treinamento técnico e a necessidade da formação do profissional que conduz o desenvolvimento da criança.
Daí a necessidade de se buscar uma educação mais abrangente incluindo além da formação intelectual, física, moral e estética, a socialização do indivíduo ancorada em um trabalho psicológico equilibrado.
Este trabalho não pode ser realizado por pessoas leigas , sem qualquer planejamento. Para se obter resultados com aulas de futebol deve ser oferecida uma grande variação de atividades motoras, aliadas a um trabalho básico e intensivo de técnicas relacionadas ao futebol, incluindo a prática do jogo propriamente dito .
No Brasil há uma certa resistência ao treinamento técnico porque a maioria dos atletas acham que não precisam deste trabalho. Quando fazem, não mostram muito interesse, por desmotivação ou desinformação sobre os benefícios, que nem sempre são dominados pelos treinadores, principalmente os leigos.
Contrariando essa falsa premissa, entendemos que a técnica não é definitiva, devendo ser aperfeiçoada constantemente através da busca de soluções adequadas para uma progressão contínua, o que só se consegue com um treinamento insistente.
Segundo Araújo, “técnica é a execução dos elementos fundamentais do jogo”(1976,23). Nestes elementos podem ser incluídos técnicas sem bola, como a corrida, movimentação tática, finta e também com toques na bola que se dão através de chutes, passes, domínios, dribles, cabeceios e proteção de bola.
Uma técnica defeituosa , completa Sriutz em Rezende, Melo e Vilela, “impede que o desportista coloque suas potencialidades físicas crescentes a serviço de uma performance específica superior” (1994,06).
Durante as aulas o treinamento técnico específico deve corresponder no mínimo a 1/3 da aula.
Esta é composta ainda por um aquecimento no início , o coletivo (jogo propriamente dito) que é responsável pela maior motivação do atleta e permite a aplicação do treinamento e termina com um trabalho de volta à calma.
Segundo Weineck “o processo de formação técnica exige, no caso de crianças, uma sistematização reforçada com uma divisão de objetivos parciais nas diferentes etapas” (1989,210).
Os fundamentos devem ser aplicados de forma intercalada, tendo sempre um como objetivo principal da aula. A seleção do grupo de técnicas a serem trabalhadas é feita na fase de planejamento e depende da idade dos alunos, do estágio em que se encontram, da estrutura e materiais à disposição do professor.
Os alunos podem ser divididos em turmas que respeitem a faixa etária, que no futebol geralmente se classifica pelo ano de nascimento, e também em níveis técnicos, o que deve ser feito com muita atenção e critérios para que não desmotive os alunos considerados mais fracos. Esta classificação facilita o trabalho dos educadores.
Melo, Rezende e Vilela concluíram em sua pesquisa que “os jogadores que fazem parte de escolas especializadas apresentam um nível maior de rendimento do que aquelas que praticam o futebol nas escolas da rede básica de ensino, além disso, os alunos de escolinhas apresentam uma maior homogeneidade, ou seja, as diferenças de técnica entre os alunos apresentam uma menor disparidade em relação aos alunos que não têm uma intensificação do treinamento técnico” (1994,11) .

O trabalho de pesquisa e avaliações nas escolinhas são necessárias à medida que permitem aos professores dividirem suas turmas de forma ideal, homogênea, direcionando seu trabalho para os diferentes grupos de alunos, quando será respeitada a individualidade. Além disso são números que podem favorecer a motivação dos atletas.
Portanto os professores devem estar sempre informados sobre trabalhos científicos relativos ao futebol ou áreas afins, podendo assim formular suas próprias pesquisas e incrementar suas aulas com exercícios pré–definidos, com objetivos coerentes à necessidade de seus alunos.

Capítulo V - A TÉCNICA DO CHUTE
“Qualquer movimento pode ser feito de muitas maneiras diferentes. Dentre estas maneiras, sempre existe uma que é ótima, uma que é péssima e, entre os dois extremos, todas as variedades e graus possíveis de eficiência. A eficiência do gesto é medida por três critérios básicos: se ele alcança sua finalidade, quanta energia ele gasta, qual sua organização interna.”
Gaiarsa, José Ângelo (1984,20)
O chute é uma característica fundamental do futebol e o movimento que define o jogo. Através dele se obtém os gols que são responsáveis pelo resultado da partida. O atleta que desenvolver um bom chute tende a se destacar no futebol.
O conhecimento teórico do chute é um fator importante para um jogador, pois o habilita a diminuir a possibilidade de erros. Deve ser desenvolvido ao máximo sob condições difíceis e com qualquer parte do pé. A execução técnica de um chute perfeito é aparentemente fácil, porém na prática as coisas não são bem assim.
Lucena conceitua o chute como “a ação de golpear a bola visando desviar ou dar trajetória a mesma estando ela parada ou em movimento” (1994,33 ).
O toque na bola pode ser feito com as várias partes do pé, como face interna, externa, dorso e bico. Os chutes podem ainda ser simples, de voleio, bate pronto , sua trajetória, rasteira, meia altura e alto.
A força que determina a velocidade da bola e o ponto de contato na bola também são variáveis determinantes no chute. O jogador habilidoso escolhe seu método de acordo com seu propósito imediato, mas às vezes as circunstâncias do jogo é que determinam o tipo de chute a se utilizar.
O chute muitas vezes não depende da vontade do jogador, quanto as suas condições nervo motora, porém é possível melhorar a técnica do chute com a correção de vícios. Para isso, é preciso respeitar o estilo do jogador mostrando-lhe as possibilidades de melhoria do movimento.
Um jogador portanto deve desenvolver ao máximo sua habilidade em chutar, sob condições difíceis e com qualquer dos pés ou técnicas.

- Cinesiologia do chute
A boa execução técnica é estudada em bases científicas e há várias condições para um bom chute. Viana e Rigueira definem o chute como “um movimento balístico pendular e acelerado pela extremidade inferior ativa, enquanto a outra extremidade do membro inferior gira a altura da cintura, formando o apoio” (1990,351).
A movimentação inicia-se com a corrida para a bola que pode ser frontal ou obliquamente, seguida da colocação da perna de apoio ao lado da bola e dependendo do chute, atrás ou um pouco à frente. O posicionamento do pé de apoio, é responsável, junto com o braço, pelo equilíbrio do corpo.
Posteriormente é feita a formação da alavanca da perna de ataque, que Viana e Rigueira consideram como a “primeira fase de preparação do chute : dobra-se o joelho em flexão, fazendo o alongamento do quadríceps, enquanto a extremidade inferior encontra-se em flexão plantar e a articulação coxo-femoral ligeiramente estendida” (1990,351). Quanto maior a alavanca, maior a possibilidade de potência.
O movimento da perna de ataque e o toque na bola são considerados por Viana e Rigueira a fase de realização do chute, onde ele relata que “ao mesmo tempo que se coordena uma flexão do quadril, promove-se uma extensão violenta da perna, por meio da contração do quadríceps, transmitindo ao pé, como um disparo, toda a força desta eficiente alavanca. O pé, por sua vez, contribui para o movimento, promovendo uma ligeira inversão no movimento inicial” (1990,351) .
Este movimento pode se tornar ainda mais veloz e potente, se adicionada ao início do disparo uma rotação interna, juntamente com uma ligeira abdução do quadril.
A finalização do movimento ocorre após a bola ser golpeada com a perna, prosseguindo na ação em razão da sua inércia até a posição final.
Quando a fase final é alcançada Viana e Rigueira destacam que “a extremidade de apoio se encontra em abdução com flexão do quadril, hiperextensão da perna e o pé em posição neutra, voltando todos, em seguida , à posição inicial, ou seja, à posição de apoio” (1990,35) .
Apenas a movimentação correta não significa que o chute terá eficiência, é preciso ainda ter intenção , objetivo, força e precisão.
A intenção e objetivo se relacionam com ataque e defesa uma vez que o atleta realiza uma ação de chutar com intuito de fazer o gol ou tirar a bola da defesa. A precisão é a característica principal deste trabalho e será considerada no próximo capítulo.
Já a força, segundo Borsari, sofre várias influências: “além da execução perfeita da alavanca da perna que vai chutar, o movimento deve ser perfeito desde os quadris até a ponta dos pés, com auxílio de pequena rotação dos quadris. Considera-se ainda a explosão, a direção e a posição em que a bola vai ser golpeada, como no centro, por exemplo, a força atinge quase 100%. Finalmente observam-se o peso, a dureza, a velocidade de chegada da bola, assim como a resistência do ar e a força de gravidade” (1989,21).
O ponto de contato do pé com a bola pode ser com a parte interna, externa, dorso e bico. Como chutes especiais podem ser considerados o calcanhar, a coxa e a cabeça. O arremesso lateral, apesar de ser executado com as mãos, também é usado para impulsionar a bola.
O chute com a face interna tem boa precisão e pouca potência. O ponto de contato é formado pela parte superior do arco do pé, compreendendo toda a parte lateral interna. Conseguem-se grande eficiência e segurança, pois a superfície de contato utilizada é enorme.
O chute com a face externa compreende uma superfície que vai do início dos dedos menores até o prolongamento da linha da perna. É de difícil execução. Quando usados por atletas destros a maioria dos chutes se direcionam do centro do gol para o lado direito, pelos canhotos, do centro do gol para o lado esquerdo da meta.

O chute com o peito ou dorso do pé tem seu ponto de contato formado pela parte superior do pé, desde os dedos até o início da perna. É considerado o mais natural dos chutes e além de possuir boa precisão é com certeza o mais potente de todos.
No chute com a ponta do pé ou de bico, encontra–se a menor área de contato com a bola compreendendo apenas as pontas dos dedos principalmente o dedo maior.
Em uma pesquisa Ferreira e Costa concluíram que “pela ordem: face interna, externa, peito do pé e ponta do pé têm maior precisão” (1994,14), dentro da mesma metodologia que será estabelecida neste trabalho.
Entretanto, como a distância utilizada é pequena, não exigindo força, não será determinado nenhum dos pontos de contatos ou de impacto para que se toque na bola.
Finalizando, queremos completar que o chute, acima de tudo, deve ser um movimento realizado com a sensibilidade motora que permita a descontração dos músculos, assim como um controle visual.

II- 1 – Diferenças anatômicas fisiológicas específicas do sexo
- Diferenças constitucionais :
A mulher, em média, não é só menor e mais leve que os homens. Possui também uma estrutura óssea mais fraca, diferentes proporções do tronco, extremidades, ombro e quadril.
A estatura feminina é entre 10 e 15 cm inferior a dos homens devido à maturação mais rápida do esqueleto e fechamento precoce dos discos de crescimento na mulher.
A média geral de altura em atletas do futebol feminino ainda é baixa, influenciando principalmente nas posições de goleiras, zagueiras e atacantes finalizadoras onde esta característica física é imprescindível.
As mulheres são de 10 a 20 kg mais leves que os homens. O esqueleto feminino contribui para essa diferença uma vez que seu peso é 25 % menor quando comparado ao masculino.
Entretanto merece destaque na estrutura óssea a maior fragilidade dos grandes ossos que tornam as mulheres mais suscetíveis a fraturas, mesmo com carga reduzida.
As mulheres apresentam uma acentuação do tronco de 38 % contra 36 % nos homens em relação ao comprimento corporal. No lado masculino acentuam-se as extremidades e os ombros são mais largos, excedendo as medidas dos quadris em 15 cm, enquanto que na mulher esta diferença é de apenas 3 cm.
Citando Schonholzer, Weineck diz que “a largura dos quadris em relação ao tronco é de 54 % nas mulheres e 50 % nos homens” (1991,358 ) .
A diferença na largura dos quadris e todas as outras de proporções específicas do sexo provocam na mulher um deslocamento do centro de gravidade do corpo para baixo.
No futebol esta diferença prejudica principalmente nas corridas e nos saltos.

- Tecido adiposo e musculatura :
Existem entre homens e mulheres diferenças consideráveis quanto ao tecido adiposo e musculatura.
Weineck encontrou em Titte e Wutscherck que “a gordura é presente 1,75 vezes mais na mulher do que no homem. E este depósito ocorre principalmente no tecido conjuntivo localizado abaixo da pele, ou subcutâneo. Observando ainda que esta parcela de gordura em relação à massa corporal total eqüivale a 28,2 % na mulher, sendo 10 % maior que no homem” (1991,358) .
A maior quantidade de gordura somada à estrutura óssea mais leve deixam as mulheres com uma menor densidade corporal.
Já no que diz respeito a músculos, o sexo feminino apresenta menor massa muscular tanto relativa como absoluta, acarretando influências negativas principalmente na força máxima.
“De forma absoluta a mulher apresenta 23 kg de massa muscular, e os homens, 35 kg. Em relação à massa corporal a parcela de músculos corresponde a 41,8 % nos homens e 35,8 % nas mulheres”, arremata Weineck (1991,358) .
Na composição das fibras, a parcela de fibras ST e FT são aproximadamente iguais nos dois sexos.
As diferenças da massa muscular provocam variações também na treinabilidade. Músculos do tronco e abdômen possuem efeito quase igual em ambos os sexos, mas nas musculaturas das extremidades os homens são melhores treinados.
Segundo Weineck “a presença do hormônio masculino (testosterona) tem o efeito anabólico sobre as proteínas (sintetizantes), sendo a causa da diferente acentuação da musculatura e da treinabilidade específica dos sexos” (1991,360) .
As diferenças entre os sexos são relativas, sendo maiores na prática devido à composição corporal e massa muscular superior dos homens.

A freqüência cardíaca em repouso é de setenta minutos na mulher e sessenta nos homens.
O coração menor e mais leve na mulher, segundo Weineck “leva a mulher, sob carga, a regular maior necessidade de oxigênio principalmente através de um aumento não econômico da freqüência cardíaca” (1991,361) .
A mulher apresenta ainda menor quantidade de sangue (3,8 l) em relação aos homens (5 l).

- Função respiratória e esgotamento de oxigênio :
Os fatores constitucionais desencadeiam uma diminuição de quase todas as medidas das mulheres, não sendo diferentes quanto às vias respiratórias, fossas nasais, traquéia e brônquio.
‘’O pulmão é menor tanto em tamanho, quanto em peso,” acrescenta Schonholzer em Weineck (1991,362) . Essa redução de medidas do pulmão feminino é como no coração, relativa e absoluta.
O menor tamanho das mitocôndrias e sua menor presença junto ao músculo esquelético feminino diminui a capacidade aeróbica da mulher, já que apresenta correlação com absorção máxima de oxigênio.
E segundo Weineck, citando Neuman e Buhl, “o aproveitamento periférico de oxigênio é menor em decorrência da menor massa muscular e pior capilarização do músculo feminino não treinado” (1991,362) .
A produção de energia se dá através dos depósitos celulares, segundo Weineck, que volta a citar Neuman e Buhl : “a mulher mobiliza mais gordura sob carga de resistência, pois possui um teor de 40% superior de triglicérides em depósitos semelhantes de glicogênio”(1991,365) .

- Metabolismo Basal e Regulação Térmica :
São ambos, na mulher, cerca de 10 % menor. A mulher tem menor perda de calor devido à presença de tecido adiposo subcutâneo e como já vimos diferentes parcelas de gordura / músculo.
Weineck encontrou em Garn que “a musculatura tanto em repouso quanto em atividade, gasta mais oxigênio que o tecido adiposo, com menor massa muscular a mulher gasta menor energia” (1991,365).
Na regulação de calor, Weineck diz que “em ambos os sexos o máximo de temperatura tolerável é igual, mas as mulheres atingem seus limites numa menor temperatura ambiental” (1991,361).
Além disso, as mulheres não atingem temperaturas corporais tão altas quanto os homens em atividade. E apresentam transpiração menor devido a menor disposição de glândulas sudoríparas.
A secreção de suor feminino começa em menor temperatura na mulher e quanto a perda de água, Israel citado em Weineck ,”conclui que já num grau menor de desidratação aparecem sinais de esgotamento nas mulheres” (1991,366).

II – 2. Desempenho feminino nas principais formas de exigências motoras
- Resistência :
Devido às menores medidas cardio - pulmonares a capacidade de desempenho feminino é menor 10 % em média, em resistência.
O menor peso corporal e o fato de com o aumento da distância do percurso haver diminuição da carga tornam a mulher tão capaz de se adaptar às cargas quanto os homens, principalmente nos limites da menor capacidade corporal.
“A máxima concentração de lactato só se observa em nível absoluto” segundo Neuman e Buhl transcrito em Weineck (1991,367). Assim a mulher apresenta boa capacitação para cargas anaeróbicas e aeróbicas.
Com o treinamento e desenvolvimento da resistência na mulher ocorre distúrbio no ciclo da menstruação, denominado amenorréia. Weineck relaciona a amenorréia com a diminuição da gordura do corpo (1991,367). Esse processo de adaptação do treinamento normaliza com a redução do volume e aumento do teor de gordura.
Relacionado ao futebol Turíbio de Barros diz que “com menor número de glóbulos vermelhos, cuja função é transporte de oxigênio no sangue diminui o rendimento feminino 15 % em relação a atletas profissionais masculinos que percorrem em média 10 km por partida. A média feminina fica por volta de 8,5 km (SEGALLA e GARCIA,1995,35) .
- Força :
A diferença de força a favor dos homens está relacionada diretamente às características hormonais específicas dos sexos.
Segundo Dantas, “a ação dos hormônios androgênicos, que possuem importante papel no metabolismo de proteínas, permite a obtenção de maiores massas musculares” (1995,163). Esses hormônios favorecem os homens.
Antes da puberdade os dois sexos possuem diferenças mínimas, mas Weineck explica que “com o impulso hormonal estas aumentam e no início da idade adulta, as mulheres alcançam apenas dois terços da força masculina” (1991,368).
Abordando a força entre os sexos em três âmbitos, podemos verificar que na secção transversa do músculo diz Katch e Katch “que o músculo esquelético humano pode gerar cerca de 3 a 4 kg de força por cm2 independente do sexo” (1992,271).
Quanto à força total exercida em valores absolutos a mulher atinge 70 % da encontrada no homem. Em relação ao peso menos gordura, considerando as dimensões e composições corporais, essa diferença cai, mantendo-se apenas devido à maior massa muscular masculina e maior formação do tecido adiposo em relação ao peso do corpo feminino.
É acrescentado ainda como relativa carga desfavorável, as diferentes proporções de alavanca.
No futebol haverá uma defasagem na impulsão, velocidade e potência de chutes. Turibio Barros diz que “uma jogadora de futebol bem preparada salta, sem tomar distância para o impulso, mais de meio metro e no chute atinge até 100 km/h, enquanto o homem, 120 km/h”( SEGALLA e GARCIA ,1995,35 ) .
- Velocidade :
Sob a influência das diferenças de capacidade pela força, a velocidade tanto cíclica, quanto acíclica são inferiores na mulher.
Mas Weineck mostra que “os componentes coordenativos de atuação neuromuscular da velocidade como o tempo de reação e a freqüência de movimento são iguais para os dois sexos. (1991,368)
No futebol um jogador veloz, segundo Turíbio de Barros em Segalla e Garcia, “percorre 50 mts em 6 segundos. Um eqüivalente feminino faria a mesma distância em 7,5 segundos” (1995,35 ).
- Mobilidade :
A mobilidade é um pré-requisito fundamental para a execução de um movimento com qualidade. Nessa exigência motora as mulheres levam algumas vantagens sobre os homens.
A diferença é proporcionada pela menor densidade dos tecidos nas mulheres tornando ligamentos e músculos mais flexíveis e elásticos, dispondo na maioria das articulações de uma maior amplitude de movimentação.
Outros fatores que favorecem o sexo feminino “são a descontração muscular, posição dos ossos da extremidades em forma de x e coluna vertebral relativamente mais longa”, complementa Weineck (1991,368 ) .

- Capacidades Coordenativas :
Hollmann e Hettinger dizem em Weineck que “no conjunto, as capacidades coordenativas parecem ser desenvolvidas da mesma forma nos dois sexos, o mesmo vale para sua treinabilidade” (1991,370 ) .
Entretanto podem ser observadas diferenças que estão condicionadas às conjecturas sociais históricas que influenciam no comportamento sexual, já citadas no capítulo anterior.
Nota-se um melhor desempenho prático do sexo feminino em destreza de motricidade fina, com melhor aproveitamento nos membros superiores, mais especificamente nas mãos.
No futebol os homens mostram uma melhor coordenação nos membros inferiores em virtude do maior tempo de prática deste esporte, podendo a mulher atingir tal nível, mediante treinamento.
Baseado nas formas de exigências motoras conclui-se que em relação aos fatores de desempenhos condicionantes (resistência, força e velocidade) o homem é mais capaz na mobilidade que a mulher e nos desempenhos coordenativos os dois sexos são semelhantes.

II – 3. As diferenças psicológicas das ações femininas no esporte.
O estudo da psicologia é hoje a área que maior novidades oferece ao esporte, sendo cada vez mais determinante nos resultados.O simples fato de se praticar esporte já caracteriza mudanças no comportamento do indivíduo.
Segundo Ogilvie e Tutilo em Samulsky “os esportistas são motivados para o rendimento e revelam uma tendência para estabelecer metas exigentes e realistas para si e outras pessoas São organizados, disciplinados e dispostos para liderança e comunicação social. Possuem elevada capacidade de auto confiança, resistência psíquica, auto domínio, controle emocional e de elevada tendência de comportamento agressivo”(1995,81).
Atletas de esportes coletivos, como o futebol, são mais extrovertidos e motivados para a socialização, possuem menor criatividade que atletas de esportes individuais, porém são menos agressivos.
Entre os sexos notam-se diferenças, que serão consideradas com destaque para os padrões de comportamento feminino.

- Personalidade :
Psicologicamente as mulheres diante do esporte se mostram “introvertidas com grande esforço para buscar autonomia e sendo mais criativas e emocionais do que o sexo masculino,” salienta Samulsky (1995,84).
Estes fatores ficam mais evidenciados em atletas que praticam esportes de competição. Quando as mulheres buscam rendimento, elas trabalham com maior coerência, consciência e mostram um maior interesse.
Possuem ainda forte orientação para o reconhecimento direto e afirmação social. Elogio e repreensão são assimilados e sentidos espontaneamente.
Samulsky citando Hahn diz “que não há diferença básica no processo de aprendizagem e treinamento de homens e mulheres. O destaque no comportamento feminino é a grande dedicação, forte persistência e disciplina” (1995,85) .
A disciplina sofre influência direta do treinador na disposição para treinamento e competição, de acordo com sua identificação com o atleta.
- Atenção :
Samulsky destaca que “um atleta modelo do estilo de atenção deve apresentar uma distrabilidade mínima , relativa falta de sensibilidade para estímulo social, nível de ativação mais alto ,e uma tendência a inibir respostas para sentimentos internos e pensamentos” (1995,41).
Já as características que determinam o estilo de atenção feminino são: tendências para detectar sugestões sociais súbitas e reagir contra elas, disposição para responder sugestões emotivas e reduzida tendência à intensidade de estímulo extremamente forte.
- Motivação :
A análise de motivação é pessoal e depende, na distribuição de Samulsky, “do nível de aspiração, hierarquia de motivos, motivo de êxito e fracasso, atribuição causal e auto responsabilidade, situações externas como incentivos, dificuldades, problemas, desafios, atratividade e novidades” (1995,56).
O nível de motivação não apresenta diferenças sexuais distantes, mas analisado dentro do futebol nota-se uma menor preocupação da mulher em atingir âmbitos profissionais ou mesmo competitivo. A maioria pratica o futebol como esporte alternativo de lazer ou mesmo atividade corporal.

- Emoção :
No trabalho com futebol feminino, nota-se uma menor suscetibilidade às críticas e no caso de resultados adversos a busca de um motivo para o fracasso é maior, quase sempre desconhecendo o mérito do adversário.
As garotas se irritam facilmente e após o jogo culpam o trabalho do professor, de determinado companheiro de equipe ou da arbitragem.
O tempo de convivência do grupo e sua relação com o treinador é indiscutivelmente fator positivo para o comportamento emotivo do atleta dentro do jogo. Principalmente quando há um respeito mútuo e consciência em relação à personalidade, objetivos e necessidades de cada um.
- Liderança :
A liderança é caracterizada, segundo Samulsky, “pela hierarquia de habilidades, atitudes, inteligência, aparência física, criatividade e flexibilidade, personalidade, idade ou maturidade, antecedentes familiares e experiência de liderança” (1995, 150).
Parece não haver diferenças determinantes entre os sexos, embora as mulheres por motivos sociais parecem ter menos necessidade de liderança.
A maior dificuldade refere-se à sociabilização. As meninas são mais resistentes às mudanças no grupo ou à inclusão de novos atletas.
- Agressão :
Samulsky caracteriza a agressão com determinantes gerais e específicos: “Generalizando a agressão se dá por limitações genéticas, classe social e sexo, valores sócio-culturais, condições políticas, econômicas, ecológicas e influência do meio de comunicação. Especificamente, é definida pela modalidade esportiva e mais diretamente por intenções, expectativa, importância das competições e espectadores (1995,104)”.
Já o futebol, como esporte coletivo de uma variedade grande de ações, caracteriza-se por agressões corporais ,verbais e não verbais.
O trabalho psicológico do treinador é fundamental para o rendimento dos atletas, assim como sua própria conduta, critérios e relação social com os esportistas.

II – 4. A menstruação, a gravidez e suas interferências no desempenho feminino
A menstruação depende do teor de gordura, iniciando nas garotas quando este atinge 17 % da composição corporal.
A seqüência da menstruação que dura em média vinte e oito dias e sempre se repete, é denominado ciclo menstrual. A influência da menstruação é determinada pelo tipo de treinamento, de sua intensidade e grau de prática de atividade esportiva.
Segundo Weineck, “com a prática de esporte diminuem as queixas de distúrbios, em contrapartida, com o treinamento intensivo acontece a amenorréia, já citada, que leva a irregularidades reversíveis da menstruação”(1991,371).
Durante a menstruação (1o ao 4o dia do ciclo) é percebido um igual ou melhor desempenho. Bockler, descrito em Weineck, diz que “as dificuldades acontecem em atividades de longa duração, enquanto há uma melhora esporádica da velocidade” (1991,371).
A fase pós-menstrual (5o ao 11o dia) é considerada a de desenvolvimento ideal, já que acontece, segundo os mesmo autores do último parágrafo, “crescimento da taxa de estrógeno, ativação do córtex da supra- renal e paralelamente maior secreção de noradrenalina”(1991,371).
A fase inter-menstrual (12o ao 22o dia) é ideal para avaliação da capacidade para o desempenho.
E finalmente na pré-menstrual (23o ao 28o dia) o desempenho reduz-se quanto mais próximo esteja a menstruação.
Weineck apresenta com Keul que a explicação para esta redução “se deve à menor concentração, fadiga muscular e nervosa mais rápida” (1995,371).
Porém, em 70 % das mulheres, não há influência da menstruação. Há sim convicções sociais errôneas. Mesmo que tensão pré-menstrual tire a mulher do sério, alguns médicos até sugerem esforço.
Palkhe e Smitka ainda em Weineck, garantem que “quanto a perda de 60 ml médios de sangue na menstruação a influência é só psicológica, já que o sangramento é percebido geralmente como inibidor do desempenho” (1995,374).
Na gravidez e no parto, o esporte praticado de forma adequada não influencia negativamente.
Dependendo da prática esportiva (modalidade e nível) Weineck sugere “continuação de treinamento e competição até três meses” e completa com Nocker “até o oitavo mês, para não se perder o rítmo, libera-se atividades leves com cargas adaptadas à capacidade fisiológica que está mudando” (1991,374).
Quanto ao parto das esportistas, Pfeifer afirma em Weineck que “ocorre de forma mais rápida , menos dolorosa e com menos freqüência de estrias” (1991,374).No pós-parto ocorre uma melhora do desempenho ainda não explicada cientificamente.
No futebol, que é por excelência uma modalidade esportiva de contato, precisão e força em cargas incalculáveis, não se indica a prática, mesmo no início da gravidez.

Capítulo III - HISTÓRICO DO FUTEBOL FEMININO
“Não botava muita fé no futebol feminino, não.
Como todo homem achava que elas não tinham nascido para isso”.
Zé Duarte, técnico da seleção brasileira feminina nas Olimpíadas , Atlanta
(DUARTE, Marcelo.1996,48)
A história do futebol feminino apesar de recente é difícil de ser pesquisada diante do grande número de adversidades que esta modalidade esportiva encontra para se firmar no cenário mundial e principalmente no Brasil. Uma delas é a falta de literatura e pesquisas específicas sobre o desempenho do sexo feminino ou comparativas entre os sexos.
Encontramos uma provável origem numa partida realizada entre ingleses e franceses em 1920,citada na revista placar. ( DUARTE, Marcelo.1996,51)
O desenvolvimento se deu nos países europeus bem antes do que no Brasil, considerando o prestígio do nosso futebol masculino. Atualmente o grande destaque do futebol feminino está na América, mais precisamente nos Estados Unidos da América.
O interesse das mulheres pelo futebol nos Estados Unidos e sua difusão é fruto dos organizados campeonatos colegiais e universitários disputados em todo país, de onde despontaram as atuais nove milhões de atletas federadas.
Com uma seleção permanente desde julho de 1995, com sede na cidade de Orlando – Flórida, os Estados Unidos tiveram participações vitoriosas no campeonato mundial de 1991 e nas olimpíadas de 1996.
Em 1997 foi criada a Liga Americana de Futebol Profissional, bancada por quatro poderosas empresas de material esportivo, até o ano 2001.Além dos Estados Unidos, na Suécia, Noruega e China o futebol feminino é igualmente forte e profissional.
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Na China, em 1991, foi realizado o primeiro mundial de futebol feminino conquistado, como já foi dito, pelos Estados Unidos. Em 1995 foi a vez da Suécia sediar esta competição e a Noruega saiu vitoriosa.
Em 1996 as mulheres disputaram a primeira olimpíadas da modalidade, em Atlanta. Sucesso de público com recorde da categoria sendo batida na final disputada entre Estados Unidos e China, no dia primeiro de agosto, com 76.481 pessoas. Aproximadamente, 10.000 pessoas menos que a final do masculino.

Os Estados Unidos venceram a partida por 2 x 1 e conquistaram a primeira medalha de ouro da categoria. A de prata ficou com a China e a de bronze com a Noruega que venceu o Brasil por 2x0.
Este heróico quarto lugar do futebol brasileiro contrasta com a desorganização do esporte no país e dificuldades para sua afirmação definitiva.
“Há notícias de que as mulheres brasileiras já jogavam futebol desde 1950, embora fosse proibido por lei o futebol feminino” (DUARTE, Marcelo.1996, 50) .
O Águias, formado por vedetes de casas noturnas em São Paulo, foi uma das principais equipes na década de setenta.
Quando esta equipe acabou, em 1975, a ponta direita Kaffé montou uma nova equipe batizada Kaffé Futebol Feminino. Ela era dona de uma boate, ponto de encontro de lésbicas de classe média em São Paulo.
Enciumada, outra ex-jogadora do Águias, Veranice, formou sua equipe, batizada de Panterinhas.

Ela era dona de outro estabelecimento para casais de mulheres. Nascia assim, ironicamente, a primeira grande rivalidade no futebol feminino.
Essa história, a princípio sem interesse, reflete um dos maiores problemas do futebol feminino: a visão estereotipada de que é um esporte praticado por homossexuais ou de que futebol masculiniza a mulher.
Outra grande dificuldade é o preconceito por parte de uma sociedade machista, inclusive por parte de pessoas diretamente ligadas ao futebol, como vimos no início com a frase do técnico da seleção olímpica.
Além desses dois problemas, o futebol feminino sempre esbarrou na falta de estrutura dos clubes brasileiros e na ausência de patrocínio para a área esportiva no Brasil, principalmente em esportes que ainda não se consolidaram em nível mundial.
A formação e manutenção das equipes femininas sempre foram bancadas por uma pessoa só, ou mesmo, pelo próprio grupo de atletas. A falta de recurso, grande índice de desistência das atletas e desmotivação provocada pela falta de adversários, também são adversidades.
A falta de adversários do mesmo nível acaba por ocasionar grandes diferenças nos resultados, a ponto de equipes abandonarem o campo de jogo, como o modesto Rio Branco do Espírito Santo, que na Taça Brasil, na época único campeonato regular do país, recusou-se a voltar a campo após levar uma goleada de 16x0 no primeiro tempo de uma partida conta o Saad.
Só em outubro de 1982 o futebol feminino foi regulamentado pelo CND – Conselho Nacional de Desportos.
O Esporte Clube Radar, fundado em 1981, pelo advogado carioca Eurico Lira, construiu a fama de time invencível, contabilizando dois penta campeonatos (estadual do Rio e Brasileiro). Além do currículo impressionante em que constam apenas quatro derrotas em trezentas partidas disputadas. O time foi extinto em 1988.
Se na década de oitenta as pioneiras do futebol feminino brasileiro eram de origem humilde, esse perfil vem mudando. As garotas da classe média aderiram ao esporte. Esta transição se deu principalmente após a vitória da seleção masculina na copa de 94. Nas estatísticas oficiais a Confederação Brasileira de Futebol registrava apenas quatrocentas atletas até 1996.
Geralmente vindas dos colégios e escolas de futebol, estima-se que o número de adeptas já atinge a marca de 100.000 em todo o país.
“Garotas altas, fortes, de classe média estão substituindo as meninas que aprenderam a jogar bola na rua com os irmãos” (DUARTE, Marcelo.1996,47) diz Romeu Castro, assessor da “Sport Promotion”, empresa para a qual a CBF repassou os direitos de cuidar e explorar o futebol feminino até o campeonato mundial de 1999.
O biotipo das brasileiras que estiveram em Atlanta era uma amostra do desnível em relação às americanas e norueguesas. O tiro de meta da goleira do Brasil não ultrapassava a linha do meio campo. Os lançamentos longos não apareciam no repertório de jogadas.
Com um maior número de atletas surgindo, pode haver uma seleção mais adequada para as exigências de cada posição.
O resultado das olimpíadas foi fruto de um intenso trabalho muscular e alimentar, a partir da convocação das atletas que conquistaram o quarto lugar.
Em 1997 o destaque foi a disputa do campeonato Paulista, denominado Paulistana, com boa cobertura da TV. A seguir veio o campeonato Brasileiro que terá a sua segunda edição este ano, inclusive, com jogos realizados em Goiânia e participação de vinte equipes de todo o país.
O São Paulo Futebol Clube desponta atualmente como a grande força do atual futebol feminino, sendo o atual campeão da Paulistana e campeonato Brasileiro. Em termos de craque, destaques para Roseli, Pretinha, Sissi e Kátia Cilene, todas da seleção brasileira.
Observação:
Como essa monografia foi escrita em 1998, esse capítulo se tornou muito defasado já que o futebol feminino nesses últimos 12 anos teve uma grande evolução, principalmente no futebol brasileiro. Com conquistas consideravéis da seleção brasileira, das nossas atletas individualmente e da criação de um campeonato envolvendo vários clubes de todos os estados.



