Monografia apresentada à Universidade Salgado de Oliveira, Curso de Pós-Graduação Lato-Sensu, para obtenção do título de especialista em Treinamento Desportivo.
GOIÂNIA – GOIÁS
Set - 1998
Set - 1998
DEDICATÓRIA
Dedico este trabalho
a minhas alunas que,
no campo de futebol
e da vida,
abriram seus espaços,
driblando a marcação do
preconceito
com graça e persistência.
Gustavo Almeida
a minhas alunas que,
no campo de futebol
e da vida,
abriram seus espaços,
driblando a marcação do
preconceito
com graça e persistência.
Gustavo Almeida
RESUMO
A monografia apresentada é um trabalho de teor crítico ancorado na pesquisa de precisão do chute, que é um fundamento específico do futebol, comparado entre atletas dos sexos masculino e feminino.
A visão crítica busca combater duas frentes: a discriminação da mulher diante do esporte, particularmente no futebol, e a falta de projetos de pesquisa neste esporte, limitando as capacidades físicas, tática, técnica e psicológica.
Para entender como é visto o interesse da mulher pelo futebol, dividimos a análise do universo feminino dentro da sociedade e dos esportes, com ênfase no futebol, elucidando inclusive sua história.
No capítulo em que discutimos a mulher na sociedade, procuramos evidenciar a incidência do preconceito em âmbito geral apresentando suas causas, efeitos e procurando conscientizar a mulher da necessidade de combater essas idéias, engajando-se na luta por seus direitos.
Para isso pesquisamos vários autores e suas idéias, a maioria apresentada em textos, com destaque para as propostas sempre lúcidas e modernas de Marcos Arruda (1998).
A participação da mulher no esporte foi baseada, entre outros fundamentos, amplamente, nas idéias de Weineck, apresentadas em Biologia do Esporte (1991), e de Samulsky, em Psicologia do Esporte (1995).
Weineck destaca a anatomia, a fisiologia feminina, assim como a influência das exigências motoras, da gravidez e menstruação na capacidade da prática do futebol. Já Samulsky aborda vários fatores que se relacionam com os padrões de comportamento.
A história do futebol feminino não apresenta uma obra exclusiva que a esclareça bem. Nossas informações foram todas obtidas em edições da revista Placar.
Para oferecer maior consistência à pesquisa, antes de apresentá-la, exploramos a escolarização do futebol, a técnica do chute e precisão. Os capítulos escolarização do futebol e técnica de chute foram fundamentados nas idéias de vários autores, assim como em nossas observações e anotações. No primeiro, apresentamos as tendências da iniciação esportiva ou treinamento do futebol e no segundo, destaque para a cinesiologia do movimento.
A precisão merece destaque por ser o fator determinante na pesquisa propriamente dita. Quase todo o capítulo ancorou-se no trabalho de Golomazov e Shirva em “Futebol, treino de qualidade do movimento para atletas jovens” (1996).
Na pesquisa ficou comprovada nossa premissa de enorme capacidade das mulheres na prática do futebol. A precisão feminina se eqüivale a masculina. A mulher madura, consciente do seu papel na sociedade e determinada a conquistar sua independência deve ser sujeito não só de suas próprias conquistas, mas somar forças com toda classe feminina contida na sociedade.
Concluímos que devem se intensificar as pesquisas para, através delas, elaborar uma literatura científica mais densa e objetiva visando a melhor formação dos profissionais que atuam na área de futebol.
INTRODUÇÃO
“Lembra que o segredo da felicidade está
na liberdade e o segredo da liberdade, na coragem.”
na liberdade e o segredo da liberdade, na coragem.”
TULCIDIES (Almeida e Costa.1994,03)
Este trabalho especificamente objetiva uma análise crítica sobre o papel da mulher no esporte e na sociedade que ainda hoje é cerceada pela visão estereotipada de uma sociedade predominantemente machista.
Nossa contribuição é tentar provar que mulher pode praticar qualquer esporte, particularmente o futebol, desde que venha de encontro aos seus interesses.
Sustentados pelos comentários de Boigey e Pini, que Dayuto destaca , “a mulher normal , convenientemente treinada e preparada psicologicamente para enfrentar situações fisiológicas que lhe são próprias, suporta perfeitamente bem todos os esportes comuns apropriados pelo homem, sem sofrer nenhuma perturbação no seu equilíbrio morfo–funcional” (1991,73).
Assim as diferenças genéticas e de constituição corporal são as únicas razões que impedem a aproximação de resultados das mulheres em relação ao sexo masculino, principalmente em movimentos ou atividades subsidiados à participação de força e velocidade.
No futebol o fundamento que decide o jogo é o chute a gol, quando é necessária principalmente a precisão ,que Golomazov e Shirva consideram “mais importante do que a força, resistência e velocidade” (1996,20).
Assim sendo vamos analisar as diferenças entre os chutes a gol de garotas e rapazes sem a participação das qualidades força, velocidade e resistência, ou seja, com bolas paradas e próximas ao gol.

Acreditamos que comparando atletas de escolas especializadas, onde o treinamento técnico especializado favorece a precisão, o aproveitamento será semelhante entre os dois sexos.
Oportunamente, levantaremos o papel da mulher na sociedade e no esporte, onde ela se encontra numa busca constante para ocupar seu espaço e merecer as mesmas oportunidades.
Abordaremos o interesse crescente do sexo feminino por um esporte dominado pelo mundo machista e que sempre se refletiu na maior paixão do povo brasileiro.
A mulher deixou de ser mera espectadora para fazer parte do show e transformar um objetivo, a princípio distante, em uma conquista real com grande aplicação e desenvolvimento técnico ascendente.
Após este relato histórico do futebol feminino, faremos um levantamento teórico da escolarização do futebol, principal celeiro das garotas que iniciam no futebol, conhecendo as particularidades do chute como fundamento imprescindível do jogo.
A precisão por sua vez busca uma consolidação como qualidade física treinável e de influência determinante em qualquer esporte, cujo objetivo é atingir determinado alvo. É importante em todas as fases da evolução estrutural do corpo humano.
Finalmente, apresentaremos nossa pesquisa baseada em um trabalho não experimental, sustentada por uma observação constante durante o nosso trabalho tanto com o futebol feminino, quanto com o masculino.

CAPÍTULO I - A MULHER NA SOCIEDADE
“Estamos vivendo num mundo macho, num mundo machista, num mundo em que as característica dos homens estão predominando sobre as mulheres.
Portanto um mundo em desequilíbrio, masculinizado: o mundo da razão, o mundo do intelecto, o mundo das armas, o mundo das guerras, o mundo do grito, o mundo da afirmação.
Mundo em que o poder é usado como força bruta e é usado para dominar. Falta fazer emergir o lado feminino da sociedade. A luta pela criação de um novo homem e uma nova mulher, desafio tanto para os homens quanto para as mulheres.
O que é o lado feminino? É o lado da emoção, da intuição, da sensibilidade, da sedução, da persuasão, é o lado da doçura, é o lado carinho”.
Arruda, Marcos (1988, 19).
Impossível perceber o universo da pesquisa sobre as possibilidades femininas no esporte sem fazer uma análise crítica sobre o preconceito para com as mulheres na sociedade. Principalmente num esporte como o futebol, predominantemente masculinizado.
Segundo Godelier, citando Marx, “hoje em nossa sociedade começou uma luta para abolir ao mesmo tempo as relações de dominação de classes e sexos” (1980, 29).
Há na sociedade estereótipos sexuais que ditam os papéis ou funções que cabem a cada um dos sexos. São preconceitos sem nenhuma fundamentação científica e em geral são inteiramente falsos.
Segundo Vesentini “o estereótipo do homem é o de um ser agressivo, inteligente, criativo e sempre com vocação para chefiar, para mandar. Para a mulher o estereótipo diz que é passiva, submissa, pouco inteligente e amorosa” (1996, 219).
Estas opiniões infundadas são ensinadas na mais tenra idade, se estruturando na sociedade quase imperceptivelmente e são difíceis de serem alteradas, uma vez que ficam interiorizadas nas pessoas.
As próprias mulheres aceitam estes julgamentos discriminatórios e se omitem perante eles como bem diz Marcos Arruda: “A coisa é mais complicada porque, na mulher marginalizada, oprimida e privada da sua feminilidade também está instalado o machismo” (1998, 16).
Os homens têm consciência destes problemas enfrentados pelas mulheres, mas se mostram indiferentes ou simplesmente ignoram o seu papel em benefício da transformação feminina.
Esta mobilização em torno da transformação do papel feminino na sociedade requer um comprometimento de todos nós, independente do sexo, classe social ou área de trabalho. As mudanças em relação às idéias sobre o sexo são também uma luta contra as classes dominantes e seus comportamentos burocráticos.
A libertação social da mulher vem de encontro à necessidade de se buscar uma sociedade mais justa com equilíbrio nas funções e obrigações de ambos os sexos, e também, mais determinada em conseguir seus objetivos e direitos com consciência e lucidez.

Atualmente, as mulheres vêm buscando seu espaço com compromisso e naturalidade, ou seja, não estão apenas preenchendo o lugar que lhes cabe de direito, mas destacando-se nas suas atribuições, que vão de encontro às suas necessidades e desejos pessoais.
Parafraseando Michele Pierrot a mulher vem criando “uma nova idéia de felicidade: ser ela mesmo, escolher sua profissão, seus amores, sua vida” (1993, 78).
Essa busca da felicidade e da autonomia não se limita apenas ao mercado de trabalho, alcançando também seu lado emocional, seus interesses sociais, culturais, necessidades íntimas como o lazer e a preocupação com sua própria beleza corporal.
Em nível de população mundial existe um equilíbrio dos sexos, mas segundo comentário de Vesentini há uma “maior incidência masculina em áreas de imigração, enquanto que nas áreas de emigração a população feminina se sobressai” (1996, 219).
Continuando com suas afirmações o mesmo autor acrescenta que “ a taxa de mortalidade masculina supera a feminina sendo compensada pela natalidade dos homens, que é ligeiramente superior” (1996, 219).
Mas o problema da mulher é sua subordinação no que tange à realidade social, observada em vários aspectos: economicamente a porcentagem feminina sobre o total da população ativa é quase sempre minoritária, a trabalhadora não tem acesso as mesmas profissões ou posições e tem quase sempre remunerações mais baixas.
Esta realidade é fruto dos já citados estereótipos que refletem também no âmbito educacional onde, embora haja um equilíbrio na proporção de estudantes de ambos os sexos, o que acontece, como frisa novamente Vesentini, é que “o número de desistência entre as mulheres é em geral maior por pressões familiares ou dos futuros maridos. Politicamente, a mulher possui ainda pouco mais de 10% de representação no país, conclui” (1996, 219).

Além disso, a discriminação se estende ao campo simbólico onde surgem imagens constatadas do “homem-sujeito” e da “mulher-objeto”. Enquanto o homem tem direitos como sair de casa, encontrar-se com os amigos e divertir-se livremente, a mulher deve cuidar dos afazeres domésticos como olhar os filhos, fazer as compras, arrumar a casa, mantendo tudo na mais perfeita ordem.
Imagem errônea cuja hipocrisia íntima sensibiliza a mulher a se engajar na luta por seus referenciais femininos. As mulheres não precisam acentuar a distorção do machismo em si próprias para se verem promovidas ao mundo dos homens.
É preciso que homem e mulher se unam como parceiros, buscando compartilhar seus sentimentos, respeitando os limites de cada um. Ninguém deve abrir mão de sua própria felicidade para se tornar dependente, perdendo até mesmo sua identidade social.
Ana Miranda salienta que “numa época em que milhões de mulheres vivem sozinhas obrigadas a arcar com a educação dos filhos e o sustento da casa, a mulher tem de enfrentar a divisão entre o lar e o trabalho profissional, assumindo seu lado feminino. Se fracassar nessa arte, não sobreviverá como um ser humano pleno” (1993, 133).
A mulher de hoje não se vê mais obrigada a aceitar os interesses da família ou do marido, pois através de sua independência financeira encontra respaldo para tomar suas próprias atitudes e impor seus interesses.
O homem, por sua vez, se viu obrigado a entender e participar destas mudanças, equilibrando as tarefas. Esta transformação aumenta o papel masculino dentro das obrigações familiares, exigindo mais responsabilidade, participação e consequentemente assumindo atribuições até pouco tempo consideradas femininas.
E assim emergindo o lado feminino da humanidade bem conclui Marcos Arruda: ”chegaremos a um mundo integral , onde a mulher irradia todos os seus potenciais enquanto mulher, integrada com as partes femininas e masculinas de si própria, equilibrada e com tonalidade marcada pelo feminismo. Essa é a busca desafio. Revolução é a construção da harmonia, educação é o aprendizado desta harmonia, e libertação é a conquista desta harmonia” (1988, 17).
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