Capítulo VI - A PRECISÃO“A super condição física perde-se sem uma capacidade de realizar
fundamentos técnicos precisos, que decidam jogos e campeonatos”.
Gomes, A. Carlos e Mantovani, Marcelo(Shirva e Golomazov.1996,12).
Nada adianta um preparo físico excelente, jogadas brilhantes no futebol, se a bola não balançar as redes, este é o detalhe que decide o jogo.
Nosso trabalho busca concluir que em precisão, as mulheres podem atingir a mesma capacidade que os homens. E considerando a precisão característica decisiva no futebol, o feminino tem tudo para se tornar tão competitivo quanto o masculino.
Neste capítulo o objetivo é elucidar a precisão citando suas características, qualidades, treinamentos e controles.
- Características e qualidades da precisão:
A precisão como qualidade física, não vem recebendo a mesma atenção dispensada à velocidade, força, resistência, flexibilidade e agilidade. Talvez se deva ao fato de que muitos a consideram como uma medida hereditária, o que não deixa de ser verdade.
Mas Golomazov e Shirva alertam para o fato de que “a precisão herdada é generalizada, mas quando adquirida durante os treinos de determinados movimentos e em determinadas condições é específica, manifestando-se nas condições e em movimentos que foi adquirida. Além disso, a propensão para a técnica nada tem a ver com a precisão” (1996,25) .
Embora com características genéticas, a precisão não se manifesta da mesma forma em todas as pessoas e sim, à medida que amadurece o seu aparelho motor e suas capacidades para aprender.
Considerando que cada criança possui seu próprio amadurecimento e capacidade de aprendizagem diferente, é preciso observar bem esta individualidade, estabelecendo que qualidades são mais benéficas em cada idade.
Interferem diretamente na precisão os sistemas sensoriais, hábitos locomotores, técnica e aparelho muscular. qualidades estas cujo desenvolvimento se dá, segundo Golomazov e Shirva, “até 10 e 11 anos no sistema sensorial, entre 11 e 15 anos (puberdade) para treinamento técnico e de 15 a 21 anos se dá a formação definitiva do aparelho muscular”( 1996,26).
Há períodos favoráveis e não favoráveis para se aprenderem certos movimentos que, quando não ocorrem na hora certa, nunca mais se recuperam, ou só são obtidos, mediante treinamentos intensos.

- O treinamento da precisão
O treino da precisão sofre a influência de três princípios na visão de Golomazov e Shirva : “quantidade, especialização e orientação de exercícios” (1996,53).
Princípio da quantidade significa que o treino da precisão deve constar de várias repetições, variando as atividades para eficácia do treinamento.
Especialização requer aproximação do treino em precisão nas ações referentes às situações de jogo, necessitando para isso de coordenação muscular, alterações cinemáticas, dinâmicas e de um estado funcional favorável do atleta.
A cinemática e a dinâmica do movimento interferem na precisão, pois o chute apresenta diferença quando se leva em consideração fatores como a velocidade do atleta, força do chute, resistência do adversário, variação dos chutes (altos, rasteiros, meia-altura ) e ações que precedem a finalização dos mesmos (corrida, saltos, condução de bola) .
O treino da precisão deve obedecer ainda a um regime fisiológico correspondente ao estado funcional que o atleta apresenta durante um jogo.
Já na orientação dos exercícios dá-se ênfase aos sistemas sensoriais, especificamente musculares, articulares e visuais trabalhando a técnica e o desenvolvimento do aparelho motor.
“Para desenvolver a sensibilidade coloque aos futebolistas o objetivo: “mais difícil que o principal”. Ao treinar técnica observe o princípio da especificação: “no treino como no jogo”. Ao desenvolver as qualidades físicas parta do princípio : “necessário/suficiente”, sugerem Golomazov e Shirva (1996,70).
- Métodos de treinamento:
Para o treinamento da precisão os métodos mais importantes são três, segundo Golomazov e Shirva: “repetições, aproximação de tarefas e contrastes” (1996,73).
A repetição de exercícios pode ser simples, com quantidade e tempo desejado , intervalados e em séries, com objetivos pré-colocados como acertar dez vezes consecutivas ou um determinado número de vezes a partir de posições diferentes.
Quanto ao método de aproximação de tarefas “consiste na execução de um só exercício em circunstâncias (estímulos) inicialmente muito diferentes que, aos poucos, se aproximam” segundo Golomazov e Shirva baseado no fenômeno da “inibição fisiológica” descoberto pelo fisiologista russo Ivan Pavlov (1996,74).
Já o trabalho com contrastes aumenta a eficácia do treino da precisão embora não deva ultrapassar um quarto das atividades do dia. Pode ser realizado com variações de tabelas ,uma de longe outra de perto, antes da finalização ou variando também o peso da bola ou as circunstâncias do treino.

- Controle da precisão:
Corresponde às avaliações que são feitas com atletas inerentes à precisão no sentido de se planejar os objetivos de um trabalho, ou mesmo, resultados e por conseqüência um “feedback”, redirecionando o treinamento.
O objetivo é diferenciar a precisão herdada da que foi adquirida em resultados da preparação motora geral.
Estes testes interessam mais para o próprio treinador do que para o atleta, mas é importante que o segundo tome conhecimento, podendo assim entender e melhorar sua participação nos treinamentos.
Para alcançar tais avaliações Golomazov e Shirva sugerem “testes de precisão de execução das ações técnicas e testes de manifestação conjunta entre precisão e velocidade” (1996,152).
Nossa pesquisa, que será detalhada no próximo capítulo, tem como objetivo a execução da precisão do chute, sem levar em consideração a velocidade e as características de composições corporais específicas do sexo, em alunos de escolas especializadas, ou seja, vindos de uma preparação técnica constante.
Capítulo VII - A PRECISÃO DO CHUTE NO FUTEBOL MASCULINO E FEMININO - PESQUISA NÃO EXPERIMENTAL
“Pesquisar é reinventar seus novos pensamentos”
Gustavo Almeida (1994,04)
Fundamentados na variedade de análises e conhecimentos adquiridos nos capítulos anteriores, apresentamos nesta parte do trabalho todo o desenvolvimento e metodologia da nossa pesquisa propriamente dita.
VII-1 - Desenvolvimento do Trabalho:
- Justificativa :
Esta pesquisa servirá para analisarmos a diferença na precisão de chutes a gol no futebol masculino e feminino.
- Objetivo:
Determinar a diferença de aproveitamento do chute a gol entre os atletas do sexo masculino e feminino, contribuindo assim para a afirmação do futebol feminino no cenário esportivo nacional e mundial.
- Delimitação
Foram analisados alunos exclusivamente de escolas especializadas, os quais executavam dez chutes livremente. O total de alunos analisados foram de dez alunos do sexo masculino e dez alunas do sexo feminino.
- Definição de termos:
ESCOLA ESPECIALIZADA: é a escola cujo objetivo visa trabalhar os fundamentos de um tipo de modalidade esportiva, no caso o futebol.

VII – 2- Metodologia :
- Tipo de pesquisa:
Pesquisa não experimental, onde analisaremos os chutes de jogadores de futebol e mostraremos, através de dados, as diferenças de aproveitamento na precisão em chutes a gol, sem interferências de padrões corporais inerentes às características sexuais.
- Instrumentos:
Para a realização dos testes foram utilizados os seguintes materiais:
- uma bola de futebol de campo;
- um trena de quinze metros;
- um gol de futebol de campo, com rede;
- um rolo de barbante, para delimitar a área do gol;
- Prancheta, caneta e folha não padronizada, para anotação dos resultados (rascunho).
- Amostra:
Foram testados vinte alunos sendo dez de cada sexo, todos com mais de um ano de treinamento das técnicas específicas de futebol em escolas especializadas.
- Procedimentos :
Os alunos deviam chutar a bola ao gol, seguindo seu estilo e técnica preferida, num total de dez bolas cada um, a distância de onze metros do gol. Os chutes deveriam ser executados em direção ao gol, dividido em nove regiões. O acerto receberia uma pontuação pré-determinada variando de um a quatro pontos. Chutes na trave ou para fora foi atribuída nota zero.
- Análise dos Dados:
- Média dos chutes dos alunos:
Masculino = Feminino
1 – 1,9 = 1 – 2,1
2 – 3,6 = 2 – 2,6
3 – 1,7 = 3 – 2,2
4 – 2,0 = 4 – 1,6
5 – 2,6 = 5 – 2,9
6 – 2,9 = 6 – 3,0
7 – 3,0 = 7 – 1,9
8 – 1,6 = 8 – 2,7
9 – 2,6 = 9 – 2,0
10 – 1,7 = 10 - 3,4
- Média Aritmética
X = 2,36 = X= 2,44
- Desvio Padrão :
S = 0,66 = S= 0,47
- Discussão:
Considerando os resultados encontrados, não só provamos que a precisão do chute a gol no futebol independe do sexo do atleta, como podemos observar neste trabalho uma pequena superioridade das mulheres talvez por detalhes tais como atenção e concentração. É bom dizer que durante os testes em ambos os grupos existiram aqueles que arriscaram menos ou mais.
Voltamos a lembrar que este teste foi feito com alunos de escola especializada, podendo não ser encontrados resultados semelhantes quando comparados a atletas profissionais, cujos homens têm mais oportunidade e tempo para treinamento e competições.
Como o objetivo do futebol é “bola no gol” e para esse fim exige-se precisão, as mulheres treinadas nas mesmas condições masculinas podem obter a mesma capacidade.
Portanto, o futebol feminino desenvolvido técnica e taticamente apresentará um espetáculo que só não se compara ao masculino pelos parâmetros físicos inerentes a composição corporal adquirida geneticamente.
Esta diferença pode ser analisada de duas formas: se por um lado não vamos ter chutes e passes tão longos, vamos ter um jogo menos bruto, com dribles e passes mais curtos. Esperamos estar confirmando o que já havíamos comprovado na prática, durante nosso trabalho: as mulheres podem jogar futebol.
Fica agora aberta uma proposta para novos trabalhos que visem elucidar a relação da mulher com o futebol, aprimorando seus conhecimentos técnicos, físicos e psicológicos.

CONCLUSÃO
A pesquisa é uma oportunidade de novos conhecimentos e, além disso nos permite construir idéias, refletindo sobre os problemas do futebol, sua relação com a Educação Física e com o contexto social.
Impossível ficar indiferente ou mesmo tentar camuflar comentários irônicos que ouvimos diariamente dentro do nosso trabalho com equipes femininas.
Preconceitos que não se limitam aos homens, machistas por influências sócio-políticas, estendendo-se às próprias mulheres e às famílias das atletas.
A esperança fica por conta daqueles que acompanham o trabalho, entendendo a opção das meninas, dando o apoio e o respeito necessário para o seu desenvolvimento.
Neste trabalho, conseguimos confirmar que a mulher tem capacidade para atingir desempenhos favoráveis no futebol. A precisão é tão aguçada quanto nos homens e o seu treinamento apresenta resultados positivos..
Falta então um trabalho técnico mais apurado, desenvolvimento das qualidades físicas próprias do futebol, isto é claro, respeitando suas particularidades genéticas e de composição corporal. É bom que se frise isto: são particularidades e não limitações.
A consolidação e criação de equipes exclusivamente femininas com recursos próprios e comissão técnica exclusiva, são provavelmente a grande chance de crescimento do futebol feminino. Nos clubes já existentes, a preferência será sempre para o masculino, sendo as mulheres relegadas a segundo plano.
É importante também, a organização de campeonatos regionais e nacionais fortes que promovam confrontos entre todas as equipes do país, elevando a motivação das atletas, o nível técnico e despertando o interesse de novas garotas.
Este fortalecimento proporcionará o interesse da imprensa esportiva, favorecendo a busca de empresas fortes que patrocinem os clubes e os eventos relacionados ao futebol feminino.
Novos conhecimentos científicos na relação mulher-futebol, assim como intensificação dos treinamentos técnico, físico, tático, psicológico serão fundamentais para a melhoria das partidas femininas.
É importante entender porém, que muitas meninas praticam o futebol sem interesse em participar de competições, pretendendo apenas o lado lúdico do esporte, que lhes proporcione um bem estar corporal e o convívio social.
Nestes casos, aumenta-se a responsabilidade de escolas especializadas e de professores de educação física ligados ao futebol, para que os mesmos respeitem os interesses de cada um, evitando assim o desinteresse ou desmotivação pelo esporte em questão.
A conscientização da mulher dentro do contexto prático futebolístico também é imprescindível . É preciso que elas passem a ter mais interesse por jogos de futebol, indo aos estádios, assistindo a partidas masculinas e femininas, podendo descobrir por si mesmas mais detalhes sobre a dinâmica dos movimentos individuais dos atletas em função do coletivo.
Esperamos com o nosso trabalho estar contribuindo para a ascensão da mulher no futebol e no universo esportivo, reafirmando sua posição de lutas e conquistas no espaço social, consolidando seus interesses próprios com liberdade de pensamento e ação.
Almejamos também destacar a importância dos resultados sempre lúcidos da pesquisa, descobrindo conhecimentos, confrontando idéias, constituindo novos projetos de trabalho e buscando a evolução dos atletas dentro dos esportes, no caso o futebol.
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