quinta-feira, 11 de março de 2010

A DIFERENÇA NA PRECISÃO DO CHUTE ENTRE O FUTEBOL FEMININO E MASCULINO - PARTE 3


Capítulo IV - A ESCOLARIZAÇÃO DO FUTEBOL

“A técnica exige uma escola se o nosso craque
não tem nada a aprender, tem muito a corrigir”
Araújo, Sebastião (1976,30)


No Brasil, o futebol ocupa o primeiro lugar de interesse na área esportiva, sendo a modalidade mais praticada e mais acessível para a população em geral. Com isso há um número muito grande de atletas e equipes, o que fortalece o desempenho dos clubes e seleção brasileira em nível mundial.

A maioria dos treinadores por falta de conhecimento científico acreditam que o jogador brasileiro nasce feito, não precisa de treinamento técnico e aquela criança que não é boa não terá futuro. Quem nasceu “bom de bola” terá seu futuro garantido.

Com essa idéia os nossos jogadores formam-se sozinhos nas peladas e brincadeiras de ruas, incluindo recentemente, com maior frequência, as garotas. Só depois, estes atletas procuram os clubes através de testes ou escolinhas.

Alguns fatores contribuem para a mudança desta situação como a modernização das cidades, a falta de segurança e de tempo livre dos pais ou das próprias crianças que vieram de encontro ao oportunismo de alguns empresários e à necessidade financeira dos clubes.

Através de estudos e treinamentos observou–se que a técnica pode ser aprimorada, inclusive em crianças que não praticam o futebol, mas dispõem de uma boa formação motora e condições corporais privilegiadas.

As escolinhas especializadas em futebol se difundiram no país oferecendo não só espaços seguros para a prática do futebol, como treinamento técnico, físico e tático, principalmente onde há o trabalho de profissionais da área de Educação Física.

Fora das escolinhas, o futebol pode ser praticado nas escolas (geralmente futsal) e nos bairros, através de programas sociais ou de governos. Além dos clubes há escolinhas criadas e dirigidas por empresários, ex-jogadores e professores de Educação Física.

Mas ainda assim a iniciação ou mesmo o treinamento de futebol passam por problemas . Nas escolas ocorre falta de estrutura, de material, e os professores mediante estas dificuldades, o excesso de alunos e a falta de tempo não alcançam os objetivos pré-estabelecidos para a educação nas várias faixas etárias.

Nas escolas do interior não há professores formados, assim como nos projetos elaborados por prefeituras, incluindo capitais, onde o ensino fica “na mão” de ex-jogadores ou pessoas que tenham interesse pelo futebol.

Isso acaba por não definir um padrão de qualidade do ensino, entretanto faz-se necessário, uma vez, que nem sempre encontram - se professores de educação física em disponibilidade ou os baixos salários não os atraem.

Nas cidades maiores as escolinhas particulares ou de clubes vêm conquistando seus espaços. Os alunos têm materiais, espaço físico professores formados. Os proprietários ou clubes, uma excelente fonte de renda, quando bem administradas.

As mulheres por sua vez se sentiram mais à vontade para a prática do futebol, quando no passado, mediante o preconceito, só jogavam com irmãos e primos.

Com a consolidação das escolinhas passaram a ser mais contestadas a utilização intensiva do treinamento técnico e a necessidade da formação do profissional que conduz o desenvolvimento da criança.


Os alunos que entram nas escolinhas nem sempre apresentam possibilidades de desenvolvimento geral satisfatório para se atingir um alto nível de desempenho no futebol.

Daí a necessidade de se buscar uma educação mais abrangente incluindo além da formação intelectual, física, moral e estética, a socialização do indivíduo ancorada em um trabalho psicológico equilibrado.

Este trabalho não pode ser realizado por pessoas leigas , sem qualquer planejamento. Para se obter resultados com aulas de futebol deve ser oferecida uma grande variação de atividades motoras, aliadas a um trabalho básico e intensivo de técnicas relacionadas ao futebol, incluindo a prática do jogo propriamente dito .

No Brasil há uma certa resistência ao treinamento técnico porque a maioria dos atletas acham que não precisam deste trabalho. Quando fazem, não mostram muito interesse, por desmotivação ou desinformação sobre os benefícios, que nem sempre são dominados pelos treinadores, principalmente os leigos.

Contrariando essa falsa premissa, entendemos que a técnica não é definitiva, devendo ser aperfeiçoada constantemente através da busca de soluções adequadas para uma progressão contínua, o que só se consegue com um treinamento insistente.

Segundo Araújo, “técnica é a execução dos elementos fundamentais do jogo”(1976,23). Nestes elementos podem ser incluídos técnicas sem bola, como a corrida, movimentação tática, finta e também com toques na bola que se dão através de chutes, passes, domínios, dribles, cabeceios e proteção de bola.

Uma técnica defeituosa , completa Sriutz em Rezende, Melo e Vilela, “impede que o desportista coloque suas potencialidades físicas crescentes a serviço de uma performance específica superior” (1994,06).

Durante as aulas o treinamento técnico específico deve corresponder no mínimo a 1/3 da aula.

Esta é composta ainda por um aquecimento no início , o coletivo (jogo propriamente dito) que é responsável pela maior motivação do atleta e permite a aplicação do treinamento e termina com um trabalho de volta à calma.

Segundo Weineck “o processo de formação técnica exige, no caso de crianças, uma sistematização reforçada com uma divisão de objetivos parciais nas diferentes etapas” (1989,210).

Os fundamentos devem ser aplicados de forma intercalada, tendo sempre um como objetivo principal da aula. A seleção do grupo de técnicas a serem trabalhadas é feita na fase de planejamento e depende da idade dos alunos, do estágio em que se encontram, da estrutura e materiais à disposição do professor.

Os alunos podem ser divididos em turmas que respeitem a faixa etária, que no futebol geralmente se classifica pelo ano de nascimento, e também em níveis técnicos, o que deve ser feito com muita atenção e critérios para que não desmotive os alunos considerados mais fracos. Esta classificação facilita o trabalho dos educadores.

Melo, Rezende e Vilela concluíram em sua pesquisa que “os jogadores que fazem parte de escolas especializadas apresentam um nível maior de rendimento do que aquelas que praticam o futebol nas escolas da rede básica de ensino, além disso, os alunos de escolinhas apresentam uma maior homogeneidade, ou seja, as diferenças de técnica entre os alunos apresentam uma menor disparidade em relação aos alunos que não têm uma intensificação do treinamento técnico” (1994,11) .

Essas afirmações foram determinantes para que nossa pesquisa fosse realizada em escolinhas especializadas, tanto para os meninos quanto para as meninas. Foram avaliados alunos de escolas diferentes, mas orientados pelo mesmo professor que aplicava um método de ensino aproximado nas duas turmas pois elas se equiparavam em faixa etária, estágio técnico e tempo de treinamento diário.

O trabalho de pesquisa e avaliações nas escolinhas são necessárias à medida que permitem aos professores dividirem suas turmas de forma ideal, homogênea, direcionando seu trabalho para os diferentes grupos de alunos, quando será respeitada a individualidade. Além disso são números que podem favorecer a motivação dos atletas.

Portanto os professores devem estar sempre informados sobre trabalhos científicos relativos ao futebol ou áreas afins, podendo assim formular suas próprias pesquisas e incrementar suas aulas com exercícios pré–definidos, com objetivos coerentes à necessidade de seus alunos.


Capítulo V - A TÉCNICA DO CHUTE

“Qualquer movimento pode ser feito de muitas maneiras diferentes. Dentre estas maneiras, sempre existe uma que é ótima, uma que é péssima e, entre os dois extremos, todas as variedades e graus possíveis de eficiência. A eficiência do gesto é medida por três critérios básicos: se ele alcança sua finalidade, quanta energia ele gasta, qual sua organização interna.”

Gaiarsa, José Ângelo (1984,20)

O chute é uma característica fundamental do futebol e o movimento que define o jogo. Através dele se obtém os gols que são responsáveis pelo resultado da partida. O atleta que desenvolver um bom chute tende a se destacar no futebol.

O conhecimento teórico do chute é um fator importante para um jogador, pois o habilita a diminuir a possibilidade de erros. Deve ser desenvolvido ao máximo sob condições difíceis e com qualquer parte do pé. A execução técnica de um chute perfeito é aparentemente fácil, porém na prática as coisas não são bem assim.

Lucena conceitua o chute como “a ação de golpear a bola visando desviar ou dar trajetória a mesma estando ela parada ou em movimento” (1994,33 ).

O toque na bola pode ser feito com as várias partes do pé, como face interna, externa, dorso e bico. Os chutes podem ainda ser simples, de voleio, bate pronto , sua trajetória, rasteira, meia altura e alto.

A força que determina a velocidade da bola e o ponto de contato na bola também são variáveis determinantes no chute. O jogador habilidoso escolhe seu método de acordo com seu propósito imediato, mas às vezes as circunstâncias do jogo é que determinam o tipo de chute a se utilizar.

O chute muitas vezes não depende da vontade do jogador, quanto as suas condições nervo motora, porém é possível melhorar a técnica do chute com a correção de vícios. Para isso, é preciso respeitar o estilo do jogador mostrando-lhe as possibilidades de melhoria do movimento.
Um jogador portanto deve desenvolver ao máximo sua habilidade em chutar, sob condições difíceis e com qualquer dos pés ou técnicas.


- Cinesiologia do chute

A boa execução técnica é estudada em bases científicas e há várias condições para um bom chute. Viana e Rigueira definem o chute como “um movimento balístico pendular e acelerado pela extremidade inferior ativa, enquanto a outra extremidade do membro inferior gira a altura da cintura, formando o apoio” (1990,351).

A movimentação inicia-se com a corrida para a bola que pode ser frontal ou obliquamente, seguida da colocação da perna de apoio ao lado da bola e dependendo do chute, atrás ou um pouco à frente. O posicionamento do pé de apoio, é responsável, junto com o braço, pelo equilíbrio do corpo.

Posteriormente é feita a formação da alavanca da perna de ataque, que Viana e Rigueira consideram como a “primeira fase de preparação do chute : dobra-se o joelho em flexão, fazendo o alongamento do quadríceps, enquanto a extremidade inferior encontra-se em flexão plantar e a articulação coxo-femoral ligeiramente estendida” (1990,351). Quanto maior a alavanca, maior a possibilidade de potência.

O movimento da perna de ataque e o toque na bola são considerados por Viana e Rigueira a fase de realização do chute, onde ele relata que “ao mesmo tempo que se coordena uma flexão do quadril, promove-se uma extensão violenta da perna, por meio da contração do quadríceps, transmitindo ao pé, como um disparo, toda a força desta eficiente alavanca. O pé, por sua vez, contribui para o movimento, promovendo uma ligeira inversão no movimento inicial” (1990,351) .

Este movimento pode se tornar ainda mais veloz e potente, se adicionada ao início do disparo uma rotação interna, juntamente com uma ligeira abdução do quadril.

A finalização do movimento ocorre após a bola ser golpeada com a perna, prosseguindo na ação em razão da sua inércia até a posição final.

Quando a fase final é alcançada Viana e Rigueira destacam que “a extremidade de apoio se encontra em abdução com flexão do quadril, hiperextensão da perna e o pé em posição neutra, voltando todos, em seguida , à posição inicial, ou seja, à posição de apoio” (1990,35) .

Apenas a movimentação correta não significa que o chute terá eficiência, é preciso ainda ter intenção , objetivo, força e precisão.

A intenção e objetivo se relacionam com ataque e defesa uma vez que o atleta realiza uma ação de chutar com intuito de fazer o gol ou tirar a bola da defesa. A precisão é a característica principal deste trabalho e será considerada no próximo capítulo.

Já a força, segundo Borsari, sofre várias influências: “além da execução perfeita da alavanca da perna que vai chutar, o movimento deve ser perfeito desde os quadris até a ponta dos pés, com auxílio de pequena rotação dos quadris. Considera-se ainda a explosão, a direção e a posição em que a bola vai ser golpeada, como no centro, por exemplo, a força atinge quase 100%. Finalmente observam-se o peso, a dureza, a velocidade de chegada da bola, assim como a resistência do ar e a força de gravidade” (1989,21).

O ponto de contato do pé com a bola pode ser com a parte interna, externa, dorso e bico. Como chutes especiais podem ser considerados o calcanhar, a coxa e a cabeça. O arremesso lateral, apesar de ser executado com as mãos, também é usado para impulsionar a bola.

O chute com a face interna tem boa precisão e pouca potência. O ponto de contato é formado pela parte superior do arco do pé, compreendendo toda a parte lateral interna. Conseguem-se grande eficiência e segurança, pois a superfície de contato utilizada é enorme.

O chute com a face externa compreende uma superfície que vai do início dos dedos menores até o prolongamento da linha da perna. É de difícil execução. Quando usados por atletas destros a maioria dos chutes se direcionam do centro do gol para o lado direito, pelos canhotos, do centro do gol para o lado esquerdo da meta.


O chute com o peito ou dorso do pé tem seu ponto de contato formado pela parte superior do pé, desde os dedos até o início da perna. É considerado o mais natural dos chutes e além de possuir boa precisão é com certeza o mais potente de todos.

No chute com a ponta do pé ou de bico, encontra–se a menor área de contato com a bola compreendendo apenas as pontas dos dedos principalmente o dedo maior.

Em uma pesquisa Ferreira e Costa concluíram que “pela ordem: face interna, externa, peito do pé e ponta do pé têm maior precisão” (1994,14), dentro da mesma metodologia que será estabelecida neste trabalho.

Entretanto, como a distância utilizada é pequena, não exigindo força, não será determinado nenhum dos pontos de contatos ou de impacto para que se toque na bola.

Finalizando, queremos completar que o chute, acima de tudo, deve ser um movimento realizado com a sensibilidade motora que permita a descontração dos músculos, assim como um controle visual.

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